Mulheres no Mercado de Trabalho: o Panorama Feminino nas Empresas

A participação das mulheres no mercado de trabalho cresce a cada ano, mostrando que as empresas estão passando por uma mudança positiva de mentalidade. Porém, ainda há muitos problemas relacionados a salários, jornadas duplas e falta de representação feminina em cargos de liderança.

Tempo de Leitura: 14 minutos

Última atualização em 1 de julho de 2021

A luta das mulheres no mercado de trabalho tem sido árdua e longa. Com os anos, muitos direitos foram conquistados, mas ainda estamos longe de alcançar um cenário igualitário e justo.

No quinto episódio do Tangerino Talks, nossos especialistas conversam sobre as mulheres no mercado de trabalho com duas especialistas no assunto: Michelle Amorim, coordenadora CSM, e Priscila Andrade, coordenadora CSI do Tangerino.

Além disso, vamos mencionar alguns fatos históricos da luta da mulher no mercado de trabalho, os desafios do home office e como a pandemia tem mudado o cenário para as mulheres. Vamos lá?

Evolução feminina no mercado de trabalho

Mulheres no mercado de trabalho

Na década de 1760, na Inglaterra, foi iniciada a Primeira Revolução Industrial, que transformou completamente o universo do trabalho.

A partir do surgimento das fábricas, o setor agrário e as atividades artesanais foram sendo levados para dentro das indústrias, redefinindo significativamente os papéis sociais e a atuação de homens, mulheres e crianças.

Agora, os trabalhadores do campo tinham a oportunidade de receber salário em troca de seus serviços nas fábricas, e assim as tarefas foram divididas de acordo com os papéis mais adequados a cada função a ser realizada.

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Foi a primeira vez que um grupo grande de mulheres começou a trabalhar fora de casa, promovendo certa autonomia e independência a elas e servindo como fagulha para o surgimento de movimentos pelos direitos das mulheres.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a indústria têxtil era a que mais contratava mulheres na década de 1840, mas as más condições de trabalho e os problemas oriundos dessa situação provocaram protestos e, consequentemente, restrições para proteger mulheres e crianças.

A legislação, à época, estabeleceu uma série de restrições, dentre elas:

  • aumentou a idade mínima para mão de obra infantil nas fábricas;
  • criou limites para a jornada de trabalho de mulheres e crianças;
  • proibiu algumas ocupações perigosas e pesadas, que pudessem comprometer a saúde desses grupos, entre outras.

O resultado não foi nada positivo para as mulheres. Agora, a força de trabalho delas era mais onerosa para os donos das fábricas, que optaram por contratar mais homens e reduzir a participação feminina nos postos de trabalho.

Para complementar, o salário recebido pelos homens era tido como suficiente para sustentar o núcleo familiar, e daí surgiu a ideia de que o marido é o provedor do lar, enquanto a mulher é quem cuida das atividades domésticas.

Escute o podcast na íntegra aqui mesmo, basta dar play!

A importância das guerras no retorno das mulheres

Com as duas Grandes Guerras — de 1914 a 1918 e 1939 a 1945, respectivamente —, a atuação das mulheres no mercado de trabalho voltou a ser expressiva.

Com os homens recrutados pelos exércitos, elas foram encorajadas a assumir atividades bélicas, nas fábricas de armamento, atuando na produção de armas e bombas.

Além disso, não podemos deixar de mencionar a participação crucial das mulheres, muitas vezes voluntária, nos postos de saúde e enfermarias nos campos de batalha e hospitais de campanha.

Com o fim dos confrontos e a recuperação gradual dos países, houve um significativo desenvolvimento social e econômico, que levou ao crescimento da educação pública, da indústria e do comércio.

Agora, os empregadores viam na figura feminina o perfil ideal para ocupar cargos em escritórios e no ensino básico, em troca de salários baixos, sem planos de crescimento e pouco competitivos.

A razão para a diferença salarial se dava, principalmente, pela posição de provedor da família que os homens ainda ocupavam. Como eles tinham que sustentar a casa, a remuneração precisava ser necessariamente maior.

Além disso, a maior parte das mulheres que trabalhavam à época eram solteiras, ou seja, não tinham dependentes para dar suporte. Essa foi a lógica usada para fomentar a falta de equiparação salarial.

A Terceira Revolução Industrial valida a emancipação feminina

Já vimos o quanto a Revolução Industrial foi importante para a inserção das mulheres no mercado de trabalho. Agora, com a terceira revolução das máquinas, não haveria de ser diferente.

Dessa vez, nos anos 1970, a presença feminina já estava em constante crescimento, embora ainda muito restrita a papéis menores dentro da sociedade.

Com o surgimento das tecnologias digitais, até mesmo as mulheres casadas passaram a trabalhar fora, dando início a tão conhecida jornada dupla.

Somado a esse êxodo, havia a possibilidade de fazer um curso superior, já que as universidades passaram a admitir mais e mais mulheres, facilitando sua participação no mercado de trabalho e a ocupação de cargos majoritariamente masculinos.

Como era de se esperar, não havia equiparação salarial. Embora as remunerações tenham melhorado, elas ainda correspondiam a 60% do salário médio de um homem ocupando o mesmo cargo.

Foi nessa época que os movimentos feministas tomaram fôlego, abrindo os olhos da população para a problemática feminina e tratando de pautas que até hoje seguem sem solução.

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Transformação digital e equidade de gênero

Atualmente, vivemos a chamada indústria 4.0, na qual migramos o universo do trabalho para o meio digital, mudando mentalidades, processos e a própria estrutura social por meio da inteligência artificial, machine learning e big data.

Embora muitos anos tenham passado desde a primeira Revolução Industrial, ainda vemos uma discrepante diferença entre a participação masculina e feminina no mercado de trabalho.

Com o progresso tecnológico e o aumento das oportunidades, não há nada que uma mulher não consiga fazer tão bem quanto um homem, e isso tem permitido que elas, cada vez mais, abandonem certos papéis tradicionais.

Contudo, algumas visões culturais e religiosas ainda determinam o destino feminino e limitam o seu crescimento, ao mesmo tempo em que expõe a fragilidade desse sistema social desigual.

Atuação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro

Atuação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro

A tendência percebida ao redor do mundo também pôde ser observada no Brasil. A mulher tem deixado de ser apenas parte da família para se tornar a provedora das casas em muitas situações.

Embora o número de mulheres que trabalham de carteira assinada tenha quase dobrado nos últimos dez anos, esse dado ainda não é tão expressivo quando comparado à quantidade de homens que trabalham fora. 

Além disso, continuamos enfrentando esse abismo quando o assunto é salário, já que os colaboradores masculinos ainda recebem salários mais altos para executar as mesmas funções.

A jornada dupla de trabalho das mulheres também é uma questão bastante discutida desde que essa emancipação profissional teve início.

Embora elas tenham migrado para os escritórios e fábricas, os serviços domésticos e o cuidado com a família foram mantidos como atividades femininas.

Com isso, a sobrecarga de trabalho traz consequências facilmente percebidas, como a exaustão e mesmo o retorno dessas mulheres aos lares.

Imagine, então, a situação das mulheres que são mães! Segundo uma pesquisa do IBGE, na faixa de mulheres entre 25 e 49 anos, a presença de crianças com até 3 anos de idade vivendo no domicílio se mostra como fator relevante. 

O nível de ocupação entre as mulheres que têm filhos dessa idade é de 54,6%, abaixo dos 67,2% daquelas que não têm.

Desenvolvimento de lideranças

Isso só mostra o quanto o mercado de trabalho ainda não adota as melhores práticas para lidar com a maternidade das profissionais.

Percurso histórico das mulheres no Brasil

Apenas para se ter uma ideia de quão longa e árdua tem sido a luta das mulheres no mercado de trabalho brasileiro, listamos suas principais realizações ao longo dos anos. Confira!

  • 1879: nesse ano, as mulheres tiveram direito a frequentar os cursos universitários, mas as pioneiras nas faculdades foram duramente criticadas pela sociedade;
  • 1932: foi dado a elas o direito ao voto de acordo com a Constituição Federal da época;
  • 1960: passou a ser comercializada a pílula anticoncepcional;
  • 1962: às mulheres não era mais necessária a autorização do marido para elas trabalharem de acordo com o Estatuto da Mulher Casada;
  • 1977: entra em cena a Lei do Divórcio, com a qual as mulheres passaram a ter direito à separação caso estivessem infelizes no casamento;
  • 1988: foi concedido a elas o direito à licença-maternidade durante um período de 120 dias;
  • 1996: o Congresso Nacional cria um sistema de cotas para garantir a inscrição de, ao menos, 20% de mulheres nas chapas eleitorais dos partidos;
  • 2002: apenas nesse ano foi excluído um artigo do Código Civil que permitia aos homens a anulação do casamento, caso descobrissem que a esposa não era mais virgem;
  • 2006: criação da Lei Maria da Penha, dando às mulheres mais força para combater a violência doméstica;
  • 2015: a Lei do Feminicídio foi aprovada, salvaguardando ainda mais a liberdade da mulher.

Para entender um pouco mais sobre a licença-maternidade, os direitos das mães que decidem adotar e os prazos, confira nosso guia completo!

Mulheres em cargos de liderança

Já passamos da fase em que algumas atividades eram executadas apenas por homens. Como mencionado, hoje vemos que não há nada que uma mulher não consiga fazer.

É evidente que determinadas profissões são ocupadas majoritariamente por homens, como as ligadas à tecnologia, por exemplo. 

No entanto, apesar do número, a maior desigualdade de gênero em se tratando de mercado de trabalho está relacionada ao lugar ocupado por homens e mulheres na hierarquia das empresas.

A sobrecarga de trabalho e o período de afastamento devido à maternidade são alguns pontos que contribuem para que a jornada das mulheres rumo aos cargos de liderança seja ainda mais longa.

A pesquisa mostra que a conciliação da dupla jornada fez com que, em 2019, cerca de um terço delas trabalhasse em tempo parcial, ou seja, até 30 horas semanais. Esse tipo de situação aconteceu em apenas 15,6% entre os homens empregados.

Mulheres em cargos de poder trazem resultados mais positivos

Para não gerar equívocos, já queremos ressaltar de antemão que a ideia não é criar uma polaridade em relação à qualidade do trabalho desempenhado por homens e mulheres. 

O que, muitas vezes, contribui para tornar a atuação das líderes mulheres no mercado de trabalho mais positiva é justamente o fato de elas trabalharem em jornadas duplas e até triplas.

Por estarem habituadas a múltiplas e simultâneas atividades, elas se mostram capazes de gerenciar times grandes e darem conta de muitas demandas com qualidade e cautela.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo IBGE, as mulheres dedicam 21,4 horas do seu trabalho semanal às atividades domésticas, enquanto os homens passam apenas 11 horas. Essa diferença aumenta quando consideramos mulheres em jornada dupla.

Além disso, características culturalmente atribuídas aos homens, como confiança, determinação e ambição, por exemplo, podem ser observadas nas lideranças femininas de sucesso.

As organizações só têm a ganhar com o perfil disciplinado, intuitivo, flexível, coeso e empático com que as mulheres comandam seus times.

Quais problemas a população feminina ainda enfrenta

Desafios da mulher no mercado de trabalho

Deu para perceber que já foi percorrido um longo caminho para garantir a presença das mulheres no mercado de trabalho.

Contudo, muitas mudanças de mentalidade e cultura nas empresas precisam ser feitas para que atinjamos o cenário ideal.

Apesar do crescimento dos movimentos pela emancipação feminina, alguns desafios ainda são bem presentes quando o assunto é a atuação das mulheres no cenário trabalhista, independentemente da área.

Diferença salarial

Batemos na tecla da diferença salarial várias vezes, porque esse é um assunto que ainda incomoda e provoca uma série de discussões sobre o status quo da nossa sociedade.

A participação das mulheres no mercado de trabalho está cada vez mais expressiva, mas ainda assim elas não são remuneradas de forma justa e igualitária.

Isso quer dizer que uma mulher ainda recebe menos que um homem para desempenhar as mesmas funções, cumprindo a mesma carga horária.

Contudo, essa prática é proibida por lei. Segundo o  artigo 461 da CLT:

“Sendo idêntica a função, a todo trabalho de igual valor, prestado ao mesmo empregador, no mesmo estabelecimento empresarial, corresponderá igual salário, sem distinção de sexo, etnia, nacionalidade ou idade.”

Art. 461

Cargos de liderança

Falamos sobre o quanto as mulheres são qualificadas para assumir cargos de liderança em empresas de todos os portes e o quanto sua contratação é benéfica para as empresas, mas a realidade nos mostra um cenário bem diferente.

Segundo o IBGE, apenas 41,8% dos cargos gerenciais são ocupados por mulheres. Essa informação também serve para ilustrar o porquê de os homens terem os salários mais altos, já que ocupam cargos hierarquicamente mais elevados.

Jornada dupla

Talvez não seja surpresa o fato de que as mulheres dedicam mais tempo do seu dia às atividades domésticas do que os homens. No entanto, os números mostram o quanto essa diferença é impactante.

Enquanto eles gastam em média 10,9 horas por semana em tarefas ligadas à casa, as mulheres gastam 21,3 horas. Somando esse tempo às horas da jornada de trabalho, fica claro por que elas são sempre tão exaustas.

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Como a pandemia afetou a participação das mulheres no mercado de trabalho

A pandemia do novo coronavírus trouxe consequências — positivas e negativas — para todos os setores da economia.

Em 2020, o percentual de mulheres empregadas ficou em 45,8% no terceiro trimestre, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Não chegávamos a esse nível tão baixo desde 1990, época em que a taxa bateu a casa dos 44,2%. 

Esse é um reflexo da desigualdade de gênero estrutural que nos assola desde sempre, mas que foi intensificado com a pandemia.

Em 2019, o percentual de mulheres no mercado de trabalho era de 53,3%. Isso quer dizer que, em um ano, esse número baixou 7,5%. Para os homens, essa queda foi bem menos brusca: de 71,8% para 65,7%, ou seja, 6,1%.

Dentre as várias possíveis causas, podemos citar o fato de elas terem sido obrigadas a conciliar a rotina de trabalho remoto, crianças em casa e afazeres domésticos, muitas vezes sem uma pessoa para ajudá-las a fazer essa gestão.

Com a perda da produtividade, muitas foram desligadas ou mesmo pediram demissão para darem conta dos cuidados com a família durante esse período de crise.

Enquanto ainda não vencemos a crise sanitária proveniente da pandemia, é preciso pensar em formas de minimizar esse abismo existente entre homens e mulheres no mercado de trabalho.

A mudança de mentalidade e cultura nas organizações é o ponto de partida para promover um mercado mais justo, com mais oportunidades e respeito à luta feminina.

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